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Colunistas

14/02/2017
A escolha humana por trás da máquina do transporte

Vanessa Gil

Sim! Somos sociais, somos hereditários, somos únicos. Nossas digitais nos garantem esta exclusividade e, ao mesmo tempo, somos um turbilhão de possibilidades.

Apesar de únicos, confesso que não gosto do termo “indivíduo”, pois, significa indivisível. E quantas vezes na vida nos dividimos? Muitas.

Dividimo-nos entre pensamentos e ações, dividimo-nos entre razão e emoção.

Prefiro o termo “sujeito”, pois estamos passíveis de ações externas que independem de nós para que ocorram, e esses acontecimentos nos atingem positivamente ou não.

Somos e estamos sujeitos, porém, a maneira como encaramos as questões diz respeito ao nosso modo de olharmos a própria vida.

De repente, você é motorista de ônibus e está sujeito (a) a tantos obstáculos, e, não raro, sai para trabalhar e deixa em casa suas questões domésticas não resolvidas. Fica o sentimento de impotência.

Você também se sente abafado pela responsabilidade da atividade, pois os passageiros necessitam da sua presença para chegar a algum lugar.

Certa vez, ouvi dizer que a nossa escolha profissional está ligada ao social e à hereditariedade.

Social porque nossa profissão é um modo de relação com outro ser humano. Esta escolha é atravessada por nossa subjetividade, que dá uma forcinha à nossa vocação.

Quanto à hereditariedade, esta influencia nossa escolha também, porque é como uma imagem refletida no espelho.

Olho, desde a infância ou adolescência, meu pai ou minha mãe exercendo esta atividade, e consigo me projetar neste cenário profissional e abraçá-lo como escolha.

Há quem diga que optou por esta ou aquela profissão visando ao conforto financeiro. Se realmente esta é a razão da escolha, ela não se sustenta quando a primeira crise financeira aparece.

Todos nós sabemos dos desafios que precisamos superar no dia a dia; isso envolve a máquina, envolve a política, envolve o relacionamento interpessoal dentro e fora do trabalho, envolve suas questões como sujeito, lembra?

Mas a profissão é social, primordialmente, porque nos coloca em contato com o outro, e já não endereço estas palavras apenas aos motoristas de ônibus, mas a todos que fazem a mobilidade urbana acontecer.

Se até as máquinas precisam do humano, imagina cada um de nós!

Por isso, tenhamos sempre em mente que, quando trabalhamos, geramos um produto, um serviço, para o outro, outro ser humano. Esta é a nossa maior responsabilidade: entregar ao outro o que gostaríamos de receber.

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Vanessa Gil

Vanessa Gil é psicóloga e doutoranda em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com o foco em Saúde do Trabalhador e Doenças Ocupacionais. É professora convidada de Pós-graduação da Escola de Enfermagem Aurora Afonso Costa – UFF.  É também autora de livros e relatora de trabalhos internacionais, com a temática motorista de ônibus.