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06/10/2017

Queda nos licenciamentos de ônibus novos no Brasil. Será só a crise econômica?



Adamo Bazani

Além da questão econômica global do País, o setor de transporte coletivo terrestre enfrenta algumas especificidades. Apesar de o Refrota, programa de financiamento de ônibus urbanos novos com recursos do FGTS que só começou a deslanchar nove meses depois do anúncio, e do Finame, com juros convidativos, os donos de empresas de ônibus ainda se queixam de restrições de acesso a financiamentos.

O mercado de ônibus começa a expressar uma reação diante dos três anos de queda acumulada, no entanto, os números positivos ainda não podem ser considerados suficientes para que o quadro seja revertido em curto prazo.

Segundo balanço da Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, divulgado nesta quinta-feira, 05 de outubro de 2017,  entre janeiro e setembro deste ano, foi registrada alta de 11,6% na produção de chassis de ônibus no Brasil em comparação a semelhante período de 2016. Saíram das montadoras, 16.155 chassis nos primeiros nove meses deste ano, enquanto que no período de 2016, foram 14.482 chassis.

A alta foi puxada pela produção de chassis para ônibus urbanos. Foram produzidos entre janeiro e setembro de 2017, 12.416 chassis e, no mesmo período de 2016, 10.732 unidades, alta de 15,7% na comparação.

Já com a produção de plataformas para modelos rodoviários, o número ficou praticamente estável entre os noves primeiros meses de 2016 e 2017. No período, deste ano, foram fabricados 3.739 chassis para rodoviários e, no mesmo intervalo de tempo de 2016, 3.750 unidades. Assim, no acumulado deste ano, a queda foi de 0,3% em comparação a janeiro-setembro de 2016.

Entre agosto e setembro, as linhas de montagem tiveram uma redução de ritmo, com queda de 23% na atividade. Em agosto, saíram das fábricas, 2.192 chassis, sendo 342 rodoviários e 1.850 urbanos. Em setembro, foram 1.687 plataformas para ônibus, das quais 270 rodoviárias e 1.417 urbanas. Já, no acumulado, os licenciamentos registram queda de 7,9%.

De acordo com a Anfavea, entre janeiro e setembro deste ano, foram emplacados 8.562 veículos de transporte coletivo. No mesmo período de 2016, foram licenciados 9.295, Entre agosto e setembro, a queda no total de licenciamentos de ônibus novos foi de 44,5%, passando de 1.558 unidades para 865.

As exportações de ônibus montados no acumulado do ano registraram queda de 3,3%. Entre janeiro e setembro deste ano, foram embarcados 6.984 ônibus, dos quais, 2.316rodoviários e 4.424 urbanos. No mesmo período deste ano, foram exportados desmontados, em regime de CKD, 3.941 e, no ano passado, de janeiro a setembro, foram 4.977 unidades.

Como as exportações de ônibus montados estão em queda, embora que menor do que no mercado nacional, a diferença entre a alta de produção e a queda de licenciamento pode ser explicada pelo tempo necessário entre a produção do chassi, o encarroçamento e o emplacamento, que pode variar entre dois e seis meses. Tanto é que, após o registro dos primeiros licenciamentos da fase que indica recuperação nas vendas, o ritmo industrial voltou a cair.

Isso acaba revelando alguns sinais como: já é possível falar em reação, mas não em recuperação ainda.

Além da questão econômica global do País, o setor de transporte coletivo terrestre enfrenta algumas especificidades. Apesar de o Refrota, programa de financiamento de ônibus urbanos novos com recursos do FGTS que só começou a deslanchar nove meses depois do anúncio, e do Finame, com juros convidativos, os donos de empresas de ônibus ainda se queixam de restrições de acesso a financiamentos.

Também pela crise econômica, mas por fatores como falta de prioridade ao transporte coletivo no espaço urbano e nos investimentos públicos, a queda do número de passageiros que ocorre de maneira consecutiva há cinco anos retira a capacidade das empresas de renovar a frota.  Sem investimentos em corredores e faixas de ônibus e gestão eficiente dos sistemas, os ônibus continuarão presos nos congestionamentos, lotados e pouco eficientes, o que afugenta passageiros, ainda mais agora com opções como financiamentos de baixo custo e parcelas reduzidas de motos e a oferta de transportes por aplicativos.

Problemas localizados, mas que se somados também mostram uma realidade do setor, também explicam a capacidade reduzida de as empresas de ônibus investirem: Há locais onde o poder público não cumpre os contratos de reajuste tarifários, com congelamentos ou mesmo reduções nos valores; aumento do total de gratuidades sem o custeio equivalente e demora para a conclusão de processos licitatórios estão entre os exemplos.

Adamo Bazani é jornalista especializado em transportes

Texto originalmente publicado no Diário do Transporte.

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