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28/05/2018

Mobilidade Urbana Sustentável e a mudança de mentalidade – parte II



Regina Di Ciommo - socióloga, mestre e doutora em Sociologia e Ciência Política

Soluções precisam vencer resistências

O carro próprio, nas cidades brasileiras, continua sendo visto como essencial e insubstituível por muitos. Isso ocorre não apenas pelo status decorrente da propriedade de um carro, mas em virtude de décadas de um transporte público ineficiente, desconfortável e insuficiente.

Para mudar o comportamento do público em relação ao carro é preciso oferecer boas opções de transporte público. São necessários mais linhas de metrô, de trens e de ônibus, além das bicicletas e o incentivo ao transporte à pé, como a possibilidade de caminhar por praças de descanso, com bancos e facilidades para o pedestre.

É preciso estabelecer uma rede de serviços de transporte, que envolva a tecnologia da mobilidade, com informações para os usuários, como horários dos ônibus e trens em tempo real e alternativas complementares de compartilhamento de carros ou bicicletas.

O público precisa receber um serviço de transporte público que seja limpo, seguro e confortável, que seja conveniente para todos os segmentos sociais e não apenas para pessoas de baixa renda, mudando essa concepção, o que é essencial.

A opinião pública sobre o transporte público é muito importante para que possa ser aceito como substituto do carro próprio, ao lado da política de tarifas mais acessíveis e do planejamento inteligente de linhas.

As vantagens do compartilhamento

Estamos vendo acontecer muitas novidades em transporte compartilhado, não só de bicicletas, mas também de carros. A tendência de compartilhamento se confirma em todo o mundo, como forma de reduzir o trânsito intenso e diminuir as despesas com transporte. E surgem novas atitudes em relação ao meio ambiente e ao convívio na cidade.

No Brasil, os sistemas de carro compartilhado ainda não operam com frota própria, mas com cadastro de proprietários de veículos, em sites destinados a esse fim. Os interessados no acesso a um carro entram em contato com os proprietários e as empresas atuam como intermediárias.

Dessa forma, os proprietários garantem uma renda extra, quando não estão usando o veículo. Ao mesmo tempo, quem usa carro eventualmente pode evitar ou adiar a compra, o que resulta em uma menor frota nas ruas. Há várias empresas no Brasil trabalhando com esse sistema, como a Fleety, ZipCar e a Pegcar, oferecendo vários modelos, com preço compatível.

O compartilhamento de carros já é sucesso em outros países do mundo, como o Canadá, onde as próprias montadoras já entraram nesse mercado, com bons resultados. A opção do tipo mão única, em que se pode devolver o carro, estacionando em um local determinado, para que possa ser utilizado por outra pessoa, é a que faz mais sucesso. Há projeções para o crescimento do mercado mundial de carros compartilhados, que preveem um crescimento de 1.1 bilhão de dólares em 2015, para 6.5 bilhões de dólares em 2024.

O compartilhamento de carros oferece muitos atrativos. Entre eles, é possível experimentar várias marcas e modelos, anteriormente à decisão da compra, ou não, do veículo. O usuário pode compartilhar um carro popular durante a semana, escolher um utilitário para viajar nos fins de semana ou, ainda, usar uma van se está se mudando ou dando uma festa.

O que está em jogo, enfim, é um questionamento da necessidade de ser proprietário de um veículo e esse tipo de negócio ajuda a mudar a mentalidade a respeito da propriedade, favorecendo o bem estar coletivo dos moradores da cidade.

A mobilidade urbana sustentável

Para um sistema de transporte urbano que seja sustentável e melhore a qualidade de vida nas cidades, é preciso integrar as diversas alternativas individuais e coletivas, com criatividade e dando prioridade para as pessoas. Precisamos ter a esperança de que as ruas voltem a ser um local de convivência e esse não é apenas um sonho.

Existe entre especialistas em mobilidade a tendência de valorização da cidade, no sentido de que ela possa ser mais habitável, sustentável e justa. A mobilidade nas áreas urbanas é reconhecidamente importante para facilitar o crescimento e o emprego e para o desenvolvimento sustentável.

As soluções para os desafios da mobilidade urbana sustentável envolvem o uso de energias limpas, com incentivos à fabricação e à comercialização de veículos elétricos, de trens modernos, seguros e pontuais, ciclovias seguras, linhas de metrô bem planejadas, sistemas de compartilhamento de bicicletas públicas, compartilhamento de carros, ônibus movidos a biocombustível, confortáveis e limpos.

Em termos de criatividade, não podemos deixar de citar o teleférico (Metrocable) de Medellín, na Colômbia. Ele solucionou o problema do acesso dos moradores de locais íngremes e é integrado às linhas de metrô, não sendo apenas um equipamento turístico, como ocorre no Rio de Janeiro.

Medellín, que era considerada uma das cidades mais perigosas do mundo, na década de 1990, passou hoje a ser uma das mais inovadoras e progressistas, graças também ao seu excelente transporte público.

O teleférico opera desde 2004 e transporta mais de 30.000 pessoas por dia, mas, brevemente, será expandido para três novas linhas. Esse é um exemplo de desenvolvimento consciente para as necessidades sociais, integrando as populações mais pobres à vida da cidade.

Mobilidade Urbana Sustentável e a mudança de mentalidade – parte I

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