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22/05/2018

Mobilidade Urbana Sustentável e a mudança de mentalidade – parte I



Regina Di Ciommo - socióloga, mestre e doutora em Sociologia e Ciência Política

A situação da mobilidade urbana no Brasil gera tensão diária nos moradores das grandes cidades, em seus deslocamentos para o trabalho, a escola, o médico, tornando-se um desafio cotidiano.

Além de poluição gerada pelos congestionamentos, há atrasos na entrega de mercadorias e serviços.

O morador enfrenta obstáculos para caminhar em calçadas impróprias, ciclovias insuficientes, distâncias enormes, muitas horas perdidas no trânsito.

Segundo estudo realizado pela organização TomTom Traffic, o Rio de Janeiro ficou em quarto lugar no mundo, entre as cidades onde se perde mais tempo no trânsito, são 43 minutos diários e 164 horas por ano, sendo a cidade mais congestionada da América do Sul.

O morador das grandes cidades brasileiras precisa se locomover atravessando grandes distâncias, em um espaço público que é disputado por pedestres, carros, bicicletas, ônibus, metrôs e trens. A destinação prioritária das ruas e sua ocupação, no entanto, continua a ser dos carros, em um país cuja frota desse tipo de veículo chegou a quase 36 milhões em 2016.

Ao contrário do que a situação exige, a frota dos ônibus, destinados ao transporte coletivo nas cidades, diminuiu 0,9%, segundo relatório do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), com base nos dados dos Detrans e Denatran, divulgado em maio de 2017.

A mudança de comportamento e a mobilidade urbana sustentável

É ilusório imaginar que se pode atingir o objetivo de mobilidade urbana eficiente e sustentável para todos sem uma mudança de comportamento das pessoas. É o que argumenta Jonna McKone em artigo publicado no TheCityFix (World Resources Institute).

Para que os atuais padrões de deslocamento nas cidades possam mudar, é preciso pensar em maneiras de influenciar e alterar as maneiras como a população adota seus hábitos de vida. E a mudança significa deslocar o foco principal do transporte urbano dos carros para as pessoas e o meio ambiente.

As políticas públicas precisam se antecipar e planejar o melhor uso do solo e dos transportes públicos para que haja uma mudança no estilo de vida. Os espaços públicos devem encorajar o transporte a pé e as bicicletas, favorecendo a criação de locais de socialização e comunicação.

Na cidade de São Paulo, no entanto, o que vem acontecendo é que a atual administração municipal vem revertendo a política de incentivo ao uso das bicicletas, com a criação de ciclovias, o que foi a marca da administração anterior, do prefeito Fernando Haddad (PT). Depois de diversas medidas tomadas, como redução da segurança nas ciclovias e aumento da velocidade permitida nas vias expressas marginais, aumentou em 48% o número de mortes de ciclistas na cidade, em 2017.

Entre as medidas tomadas pela prefeitura da cidade está o cancelamento de trechos de ciclovias, no Morumbi, zona oeste, e na Vila Maria, zona norte. Essas ações removeram as sinalizações do solo para segurança do ciclista, como pintura vermelha, linha branca e tachas refletoras, sem nenhum aviso prévio ou justificativa. As ciclovias, nesses locais, são utilizadas por trabalhadores no seu deslocamento para o trabalho, principalmente nos horários de pico, de manhã e à tarde.

Essas medidas estão na contramão de todos os estudos já realizados sobre a utilidade do uso da bicicleta na cidade, um meio de transporte muito mais barato do que o carro e que pode ser uma alternativa para pequenos deslocamentos também para quem faz uso do veículo. Não é só o transporte por bicicleta que está crescendo no mundo todo, como também o compartilhamento de bikes.

Há outras formas de deslocamento diferentes que não seja necessariamente dirigir o próprio carro. Quanto mais as pessoas usam a bicicleta, por exemplo, mais as ruas se tornam seguras para todos, especialmente para crianças e idosos e outros usuários vulneráveis. As cidades que implementaram o compartilhamento das bicicletas também adotaram a infraestrutura necessária, o que é essencial para que as pessoas usem a rua de formas diferentes.

Mobilidade Urbana Sustentável e a mudança de mentalidade – parte II

 

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