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09/04/2018
De onde vem o exemplo?

Roberto DaMatta - antropólogo e escritor

Quando um jovem antropólogo perguntou a um chefe indígena como ele administrava seu povo, sua resposta foi exemplar. Quando — disse ele — o pátio central da aldeia precisa ser limpo, eu pego o meu facão e inicio a tarefa. Pouco a pouco, os outros chegam, e logo todos estão fazendo o que deveria ser feito. Esse mesmo chefe ensinou a esse mesmo rapaz uma antinorma da antipolícia brasileira: um bom chefe não acumula, ele distribui…

O exemplo como exemplo é o apanágio dos humanos. Esses bichos que não nascem prontos. São programados para não terem programa e, por viverem na dúvida, precisam de mandamentos, leis e ideologias, quase sempre vindas do céu e dos deuses, que variam entre si, dependem de pessoas e, como ensinou Marx, de circunstâncias. O que é amizade aqui, é corrupção por lá; o que é ativismo político acolá, é crime aqui… Por isso, esse “bicho-homem” mata em nome da vida, suplicia em nome de Deus, torna-se criminoso aviltando boas causas.

No nosso caso, eis a descoberta simultaneamente alarmante e transformadora, os partidos do poder sempre foram donos e “cuidadores” do povo brasileiro. Os eternos “doutores”, tidos como sábios, sabiam o que fazer para levar o Brasil a um nobre futuro. Tanto isso é verdade que hoje conseguimos ter linhagens de boçais que, cruzando entre si, estão suicidando o país mas sem deixar de fazer — sejam eles de um lado ou do outro — o que sempre tiveram o direito de fazer: roubar a coisa pública em redes de favores.

Eu fico chocado quando ouço pessoas falando do “Brasil” como se elas não fossem também o Brasil e não precisassem de ninguém para fazer o país que desejam. Na nossa alma, somente o “governo” é responsável e capaz de modificar o Brasil. Neste caso, o exemplo viria dos administradores-donos, não somente do poder (na fórmula de Faoro), mas desse coisificado Brasil.

Uma visão vertical do sistema nos leva a olhar quem está por cima (para pedir ou obedecer) ou por baixo (para favorecer ou cuidar) mas uma perspectiva horizontal, hoje obrigatória, muda tudo. Agora, o exemplo vem, esperamos, dos “supremos”, mas também do bom senso igualitário: de um olhar agudo para os lados. Sem isso, vamos continuar procurando messias e santos e encontrando caudilhos e boçais.

Cito um exemplo clássico:

“Quando Xerxes, o grande rei dos persas, perguntou como aquelas cidades gregas sem rei se levantariam contra ele, Demaratus (rei de Esparta exilado) replicou: ‘Eles têm, sim, um senhor, e esse senhor é a lei que eles temem muito mais do que qualquer dos seus súditos. O que esse mestre comanda eles obedecem, e esse comando jamais varia — ele jamais retrocede nas guerras quaisquer que sejam as circunstâncias e permanecem em formação para conquistar ou morrer’.” (ver Alan Ryan, “On Politics”)

Estamos muito longe dos gregos e mais ainda dos “índios”, que a boçalidade cultural situa na “Idade da Pedra”. Como ibéricos, o que vale para uns não vale para os outros. Cada caso é um caso e, embora a lei seja a mesma, o que conta não é o crime, mas quem o praticou. Não é a lei que submete o “paciente”; é — estamos pagando para ver — o “paciente” que a engloba.

A lei, reitero neste Domingo de Páscoa com um desalento esperançoso, depende de quem estamos falando.

No livro de Suzanne Chantal, “A vida quotidiana em Portugal ao tempo do terremoto (1755)”, Lisboa: Livros do Brasil, 1962, ela fala de uma instituição pouco analisada, mas rotineira lá e aqui: o empenho.

“O chefe da família (e da casa) era, mais ou menos, o responsável (…) pelo casamento das raparigas e pelo emprego dos rapazes. Acresce, assim, que muitas vezes tinha que meter empenhos por seus protegidos, e fazia-o sem escrúpulos nem vergonha. ‘Nomeie, pois, este rapaz oficial num dos seus regimentos’ — dizia tranquilamente um português ao Conde de Lippe, vindo para reorganizar o Exército — ele foi meu companheiro durante vinte e cinco anos e isso merece recompensa.

Custava recusar qualquer coisa a um amigo — que aliás era quase sempre um pouco compadre ou parente (…) por isso abundavam funcionários inúteis, legiões de criados, os procuradores parasitas que gravitavam, obsequiosos e sem problemas, à volta de todo homem de bem.

A proteção (…) estendia-se aos mais deserdados mas também aos menos merecedores. Recomendava-se um incapaz e afiançava-se sem hesitações um malandrim. Desde que fosse primo de uma criada ou bastardo de um primo irrequieto. Uma pessoa influente pede a outra em benefício de uma terceira, geralmente indigna ou nula, e obtém para esta um favor imerecido, ou a sua isenção de um antigo merecido. De fato. (…) a influência pessoal era usada a torto e a direito.(…) Um pedido tornava-se um teste. Quanto pior fosse o caso, quanto mais o protegido tivesse ofendido a moral ou a lei, quanto mais obstáculos houvesse a vencer, mais o protetor afirmaria o seu poder.(…)” (pagina 141).

Seria daí que viria o exemplo?

Fonte: “O Globo”, 04/04/2018.

02/04/2018
Dê o passo decisivo

Armando Correa de Siqueira Neto - Psicólogo, consultor, professor e mestre em Liderança

Você vai ler:

  • A motivação e o caminho de sucesso. O passo decisivo da sua carreira.
  • A superação e o crescimento profissional.

Ao pesquisar sobre profissionais bem sucedidos é comum se deparar com um aspecto semelhante entre eles: o passo decisivo em relação à sua motivação.

Até um determinado momento de suas vidas, o seu estado de ânimo era mediano. Todavia, por sua decisão, baseada em metas bem estabelecidas, eles deram um impulso e ganharam novo e determinante fôlego para crescer.

E você já pensou como seria a sua vida profissional caso ela deslanchasse em razão de novas atitudes tomadas? O que diria o seu líder? Os seus colegas? Você mesmo?

Além de pensar a respeito para se alimentar da ideia e se estimular, é preciso dar sequência ao empreendimento e dar o passo decisivo. Quando pensamos e não executamos, descremos. Por outro lado, se ao menos tentamos, nos aproximamos do objetivo. E com uma boa dose de persistência podemos, invariavelmente, chegar lá.

Superação: ultrapassar o previsto sempre gera um sentimento de poder e capacidade essencial para garantir a perseverança necessária para realizar suas tarefas.

Contudo, é preciso perseguir alguns objetivos. Logo, tê-los é crucial. O que exatamente pode se tornar um bom alvo a ser atingido? Em razão das diferentes necessidades e desejos existentes nas pessoas, é prudente lhes permitir o estabelecimento de várias metas (bens materiais, status, reconhecimento etc.).

Porém, há aspectos comuns que podem ser almejados por todos ou, pelo menos, por boa parte dos colaboradores, tais como a autossuperação (técnica, intelectual, comportamental) e a superação dos resultados individuais e em equipe. Na prática, você é quem sempre ganha, podendo levar outros a se entusiasmar e vencer também. Mas vale lembrar que a decisão de dar o passo decisivo é de cada um.

Andar na direção de se automotivar é um direito (quiçá um dever) disponível em nossa natureza, cuja decisão pessoal baseia-se na escolha do tipo de atitude que se toma. O passo é decisivo porque a mudança nos faz perceber (e crer) que é possível avançar mais do que se imaginou (ou acreditou).

E quando evoluímos de forma concreta, registramos em nós o sentimento de que somos capazes de ultrapassar pontos anteriormente fixados como limite, além de nos proporcionar superações profissionais até então desconhecidas.

Cobre-se mais. Extraia resultados diferentes e superiores da sua capacidade latente. Creia mais. A cada novo passo decisivo você se perceberá convicto sobre o quanto é possível crescer. Faça a sua parte. Dar o passo depende de você. É decisivo!

Lembre-se:

  • Mude para alcançar um sucesso crescente na sua carreira.
  • A decisão é íntima e pessoal.
  •  Só você tem a chave para abrir a porta do entusiasmo pessoal.

E você…

  • Como avalia o seu grau de motivação no trabalho?
  •  Precisa mudar o seu entusiasmo?
  •  O que tem feito para aumentar a sua motivação?
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20/03/2018
As prefeituras não precisam aumentar a tarifa de ônibus todo ano

Rafael Calabria - pesquisador em mobilidade urbana do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor)

Em todo começo de ano, milhões de pessoas são “assombradas” com os anúncios de aumento de tarifa nos sistemas de ônibus e trens pelo Brasil. Com a justificativa de cobrir a inflação ou reajuste das contas, os governos e prefeituras tratam o aumento como algo inevitável, se escorando no argumento da responsabilidade fiscal. Mas o que essa explicação esconde é que existem alternativas para as prefeituras tratarem a tarifa de ônibus com a responsabilidade que o assunto merece.

Um dos resultados marcantes dos protestos de junho de 2013 que se espalharam pelo país foi o destaque dado ao debate sobre o valor da tarifa de transporte no país. A discussão, porém, se concentrou em como a tarifa restringe o acesso de cidadãos aos serviços de transporte e não avançou sobre as formas de reduzir efetivamente o custo da tarifa.

A conta do transporte nas cidades tem um custo alto, não há como negar. Portanto, não se trata de baratear o transporte, piorar os ônibus ou degradar a qualidade. O objetivo é buscar formas de pagar o custo desse transporte, melhorar a qualidade e baratear a tarifa final do usuário, garantindo o acesso de mais pessoas ao direito à mobilidade.

Escolher como pagar as contas deve ser parte da decisão política de cada prefeito ou prefeita, governador ou governadora, e este é um dos casos em que já existe uma lei para ajudar o governante a tomar diferentes decisões para não aumentar, ou até reduzir o custo da tarifa.

A Política Nacional de Mobilidade Urbana, aprovada em 2012, envolve essa discussão e possibilita que o gestor público busque recursos em algumas áreas para cobrir o custo da tarifa. Esses recursos podem vir de receitas alternativas ou de compensações e tributações de outras categorias que se beneficiam dos serviços de transporte.

As receitas alternativas são interessantes e não oneram nenhum cidadão. As mais conhecidas são os espaços para propaganda dentro dos ônibus e exploração comercial de espaços de terminais e estações ferroviárias trazendo outros serviços agregados para o usuário do transporte e gerando receita para baratear a tarifa. Essa possibilidade é especialmente importante para cidades que estão discutindo suas licitações de ônibus, como é o caso de São Paulo, Natal e Porto Velho.

A outra opção, a tributação de setores que se beneficiam do serviço de transporte, seria uma importante ferramenta para melhorar a mobilidade das grandes cidades. Essa solução envolve várias opções como uma taxação sobre o litro da gasolina, políticas de estacionamento, uso do IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) ou até outorgas que recolham receitas da valorização imobiliária de terrenos valorizados pelo transporte. Embora gere bastante rejeição, a tributação do uso do carro é a opção política mais interessante, pois, além de baratear o custo das passagens, desestimula o uso do automóvel particular, trazendo melhorias para a fluidez do transporte público e para a qualidade do ar das cidades.

Essa medida, embora positiva para a mobilidade urbana, muitas vezes é refutada por falta de informação da sociedade. Por isso precisa ser mais discutida, para que se explique seus benefícios. Pesquisas recentes, da Fundação Getúlio Vargas e do Ipea, demonstraram que além de todo o impacto positivo para a mobilidade das cidades, e a justiça social que ela traria ao beneficiar a população de mais baixa renda, a taxação do uso do carro teria um impacto deflacionário na economia, em razão do peso que o custo da tarifa tem na sociedade.

Ainda há alternativas como os fundos de tributos de grandes empresas, que demandam muito do transporte das cidades – solução adotada em cidades europeias, por exemplo -, mas que no Brasil necessitam de uma mudança na lei federal que instituiu o Vale Transporte. Essa medida redistribuiria o valor gasto pela empresa com o transporte do funcionário, barateando o gasto com a mobilidade para todas as pessoas da cidade.

Por fim, ainda é possível se pensar em soluções pontuais para cidades que tenham alguma renda específica, como é o caso de Maricá, no Rio de Janeiro, que criou uma empresa pública de ônibus que opera com tarifa zero para o usuário final, pagando parte do custo com os royalties da exploração de petróleo da qual a cidade é beneficiária.

Com essa variedade de opções à disposição e asseguradas por lei, as prefeituras e estados que não buscam recursos nem debatem com a população formas de baratear o custo da tarifa estão sendo omissos e parciais. O fato de a população ter pouco conhecimento sobre a legislação e as alternativas que outras cidades buscaram, aliado à grande pressão midiática, cultural e econômica em favor do uso do carro em nossa sociedade, facilita a omissão das administrações públicas e torna os repetidos aumentos tarifários medidas recorrentes.

A situação começou a ser modificada com os protestos de junho de 2013, que forçaram uma retratação de diversos governantes na época, mas, passados quase cinco anos desses episódios, fica claro que a discussão ainda precisa ser aprofundada e ampliada para que as tarifas de transporte público sejam vistas como uma política pública a ser garantida e não apenas como um pagamento a ser atualizado anualmente.

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